Hotspot Cerrado

Ecossistemas únicos e ameaçados são também conhecidos como hotspots de biodiversidade.

Por que conservar o Cerrado?

Clima, topografia e biodiversidade

O Cerrado é a maior região de savana tropical da América do Sul, com mais de 2 milhões de quilômetros quadrados e localizando-se principalmente no Brasil, mas estendendo-se ligeiramente em partes adjacentes da Bolívia e do Paraguai.

O clima tropical é caracterizado por uma estação chuvosa seguida por uma estação seca sem quase nenhuma precipitação. A média de precipitação anual é de entre 600 e 2.000 milímetros, enquanto a média anual de temperaturas varia entre 22 e 27 graus Celsius.

Além do clima, a biodiversidade do Cerrado é influenciada pela altitude e topografia. A área central do Cerrado consiste em vastos planaltos de 300 e 1.600 metros de altitude. Estas estruturas suportam principalmente formações de savana, separadas por uma rede de planícies baixas. Além de outros tipos de vegetação, como matas e campos.

Biodiversidade

O Cerrado é reconhecido como a savana tropical mais biodiversa do planeta, devido à sua grande extensão, diversidade e conexões com outros biomas, abrigando mais de 14 mil espécies de plantas e uma fauna igualmente rica e diversa, com alto grau de endemismo. Essa biodiversidade, hoje ameaçada pela expansão agropecuária, sustenta serviços ecossistêmicos essenciais, como polinização realizada por abelhas, aves e morcegos, controle natural de pragas por predadores silvestres, regulação dos ciclos hídricos e armazenamento de carbono. Além disso, o bioma é centro de origem de culturas como amendoim, feijão e mandioca, e reúne recursos genéticos estratégicos para a adaptação às mudanças climáticas, apoiando a agricultura familiar e comunidades tradicionais. Conservar o Cerrado é, portanto, fundamental para a segurança alimentar, a resiliência climática e o equilíbrio ecológico em escala local e global.

Serviços Ecossistêmicos

Do ponto de vista hidrológico, a ecologia do Pantanal, a maior planície alagada do mundo, depende da água que flui do Cerrado, enquanto todos os afluentes do sul do Rio Amazonas, exceto dois, originam-se no Cerrado. Além disso, para grande parte do sul do Brasil, o Cerrado fornece água para o consumo e para a agricultura, através de escoamento superficial, recarga de água subterrânea e fluxos atmosféricos de vapor de água.

O Cerrado também possui grande quantidade de carbono armazenado em suas florestas, incluindo nas raízes profundas das árvores.

Além de sua alta biodiversidade, o Cerrado garante a subsistência das populações humanas dentro e fora de suas fronteiras. Localmente, os recursos da biodiversidade sustentam os meios de vida de milhões de agricultores familiares, comunidades tradicionais e povos indígenas no Cerrado, que somam cerca de 5 milhões de pessoas.

Ameaças

A principal ameaça à biodiversidade do Cerrado é o desmatamento. E a maior parte da cobertura vegetal original ainda restante tem sido alvo de vários tipos de interferência. Nas últimas cinco décadas, o Cerrado tem sido a principal área de expansão agrícola e consolidação do agronegócio brasileiro, levando à perda de metade da cobertura vegetal original deste hotspot – ecossistema único e ameaçado.

Os níveis de desmatamento no Cerrado são atualmente maiores do que na Amazônia, assim como os níveis de emissões de gases de efeito estufa. Embora o Cerrado tenha poucas florestas densas, ele é igualmente ou até mais importante devido à sua biodiversidade e aos seus serviços hídricos e de carbono. Embora o Código Florestal Brasileiro estipule a designação de Áreas de Preservação Permanente e Reservas Legais, elas não serão mais que fragmentos isolados se o desmatamento no Cerrado continuar em seu ritmo atual.

O modelo de desenvolvimento econômico do Cerrado está colocando pressão tanto nas comunidades locais quanto nos ecossistemas naturais, através da conversão continuada de terras para fins agrícolas e de pecuária. Os dados do MapBiomas, iniciativa que envolve uma rede colaborativa com especialistas nos biomas, usos da terra, sensoriamento remoto, SIG e ciência da computação, demonstram que 48% do Cerrado já foi convertido para a produção agropecuária. Este problema é exacerbado pelo fato de o Cerrado ter um dos menores níveis de proteção, com apenas 8,2% da superfície terrestre protegida.

A extrema riqueza biológica deste hotspot, combinada com o alarmante índice de conversão de terras na região, indica que devem ser tomadas medidas urgentes para garantir a sustentabilidade ambiental e o bem-estar das sociedades humanas.

Sociobiodiversidade

A agricultura familiar é a base dos sistemas alimentares locais e do emprego rural no Cerrado, respondendo por cerca de 70% dos alimentos consumidos na região. Paralelamente, as cadeias de produtos da sociobiodiversidade, apoiadas pela Política Nacional de Desenvolvimento Sustentável dos Povos e Comunidades Tradicionais (PNPSB) e fortalecidas pelo Programa Sociobio Mais (2025), geram aproximadamente R$ 500 milhões por ano para cerca de 200 mil famílias. Instrumentos como a Política de Garantia de Preços Mínimos para Produtos da Sociobiodiversidade (PGPM-Bio), operacionalizada pela CONAB, contribuem para estabilizar a renda de extrativistas ao assegurar preços mínimos para produtos como babaçu, pequi, buriti e baru — somente em 2024, cerca de 14 mil toneladas foram comercializadas com apoio do programa.

Cooperativas regionais demonstram a viabilidade econômica de bioempreendimentos comunitários, enquanto marcos como a Lei do Pequi (15.089/2025) reconhecem essas cadeias como estratégicas para a segurança alimentar e a adaptação climática. Apesar disso, desafios como concentração de mercado e altos custos logísticos ainda limitam o crescimento. Evidências indicam que milhões de pessoas dependem direta ou indiretamente da sociobiodiversidade e das cadeias agroextrativistas no Cerrado, reforçando que os resultados de conservação no hotspot estão intrinsecamente ligados à segurança alimentar, à geração de renda e à sustentabilidade dos sistemas produtivos familiares e comunitários.

Água

Os habitats terrestres e os ecossistemas no hotspot podem ser divididos em três grandes categorias: florestas, savanas e campos. Além disso, há muitos riachos, rios, lagos e lagoas de água doce, com grande variação sazonal no volume de água. Estes ambientes abrigam comunidades biológicas altamente diversas com muitas espécies únicas, que constituem um ecossistema nacionalmente vital para o abastecimento de água e energia. 

O Cerrado contém uma grande variedade de ecossistemas aquáticos naturais e sistemas específicos associados com planícies de inundação. A predominância de terras altas no núcleo da área do hotspot oferece condições para que as águas superficiais drenem para as principais bacias hidrográficas do país. A região também exerce um papel fundamental como divisor de águas, possuindo inúmeras áreas de recarga de aquíferos e grandes volumes de águas tanto superficiais como subterrâneas. É no Cerrado que se encontram as cabeceiras da maioria dos principais rios brasileiros, como o Xingu, São Francisco, Tocantins-Araguaia, Parnaíba, Tapajós, afluentes da margem direita do rio Paraná e todos os rios que formam o Pantanal. Além disso, seis das oito grandes bacias hidrográficas no Brasil encontram-se no hotspot

O Cerrado gera mais de 70% da vazão das bacias do Araguaia/Tocantins, São Francisco e Paraná/Paraguai. Em termos hidrológicos, a Bacia do São Francisco é dependente do Cerrado, que gera 94% da água superficial da bacia. A Bacia Paraguai/Paraná é outro destinatário das contribuições hidrológicas importantes do Cerrado, uma vez que, cobrindo 48% da sua área total, gera 71% da vazão média da bacia. A rede hidrológica do Cerrado fornece cerca de 14% da produção de água superficial do Brasil, mas quando a Bacia Amazônica é retirada da análise, o bioma cobre 40% da área e é responsável por 43% da produção total de água superficial restante para todo o país.