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Para uma comunidade isolada no Brasil, conhecimento é poder

A comunidade Kalunga está utilizando dados de mapeamento para defender sua terra e modo de vida tradicional

traduzido do texto publicado por Marsea Nelson, Gerente Sênior de Comunicação do Fundo de Parceria para Ecossistemas Críticos 

 

Várias centenas de anos atrás, no Brasil, grupos de escravos fugitivos estabeleceram comunidades – conhecidas como quilombos. Muitas destas comunidades foram destruídas, mas em uma remota região montanhosa de Goiás, cerca de 8.000 de seus descendentes – o povo Kalunga – continua com um estilo de vida tradicional, em grande parte isolado do mundo moderno.

Hoje, no entanto, esse mundo moderno está se formando para esta comunidade. Os Kalungas se viram lutando tanto por sua cultura quanto por sua terra ancestral, que fica dentro da impressionante região da Chapada dos Veadeiros (Goiás, Brasil), que faz parte do hotspot de biodiversidade do Cerrado.

Os Kalunga são principalmente católicos. No entanto, alguns se converteram ao neopentecostalismo, o que trouxe algumas diferenças com os membros da comunidade que continuam mantendo crenças tradicionais.

As crianças da comunidade aprendem sobre a biodiversidade local. Foto: ©Acervo Associação Quilombo Kalunga

Além disso, os Kalungas mais jovens deixam o território para estudar ou trabalhar. “Quando eles retornam, trazem influências musicais, danças de fora e novos hábitos”, afirmou Vilmar Souza Costa, presidente da Associação Quilombo Kalunga (AQK). “Eles também trazem uma nova visão de como se relacionar com a terra, querendo aplicar novas tecnologias para cultivá-la e combater pragas, que são mais apropriadas ao agronegócio.”

As ameaças às terras Kalunga incluem planos iminentes para a construção de uma pequena usina hidrelétrica e pressão consistente por parte das empresas de mineração, além de um aumento nas terras usadas para a agropecuária.

“As áreas de pastagem cresceram ao longo dos anos e áreas abertas já tomam conta do território”, disse Costa. Ele também observou que as populações de muitas espécies da biodiversidade local – incluindo antas, tatus, emas e peixes – diminuíram.

O time de campo do projeto. Foto: ©Acervo Associação Quilombo Kalunga

Reconhecendo estes desafios, a comunidade estabeleceu a Associação Quilombo Kalunga em 1999 para representar e defender seus interesses.

Em 2013, surgiu a ideia de usar o geoprocessamento para entender melhor as famílias que vivem na região e no território, documentando precisamente o que as terras Kalunga abrigavam, onde eram mais vulneráveis e onde haviam as melhores oportunidades para implementar o turismo.

Encontrar financiamento para o projeto, no entanto, mostrou-se desafiador. Os fundos do governo fracassaram e os esforços para encontrar outro doador não se concretizaram até cinco anos depois, quando o CEPF concedeu à Associação sua primeira doação de US$ 216.600,00.

“No Cerrado, trabalhar com povos e comunidades tradicionais é uma parte importante de nossa estratégia”, disse Peggy Poncelet, diretora de subsídios do CEPF. “Nem todo doador está equipado para fornecer o tipo de suporte técnico que uma organização em desenvolvimento como a AQK exige, mas o CEPF está.”

Território Kalunga. Foto: ©P. Poncelet/Acervo CEPF

Com o financiamento finalmente estabelecido, um especialista foi contratado pela AQK para treinar 24 jovens Kalungas em GIS e Open Data Kit, que é um conjunto de ferramentas de coleta de dados que não requer conexão com a internet. Eles então, começaram a reunir sistematicamente informações socioeconômicas sobre os residentes locais do Sítio Histórico e Patrimônio Cultural Kalunga.

O trabalho não foi fácil – a equipe enfrentou fortes chuvas e estradas ruins. Às vezes, eles iam para locais difíceis de chegar, apenas para descobrir que a família não estava em casa. Este trabalho de campo foi um processo complicado, mas que, segundo Costa, os jovens assumiram com “entusiasmo e alegria”.

As informações coletadas na pesquisa estão sendo úteis em muitas frentes. A empresa estatal de saneamento usará os dados para melhorar o abastecimento de água e o saneamento na comunidade. As informações sobre quais famílias têm cães e galinhas serão usadas pelo Departamento de Saúde para ajudar a combater a doença de Chagas, que pode causar sérias complicações à saúde. Enquanto isso, uma organização federal está usando dados sobre o cultivo da terra e a criação de animais para fornecer assistência técnica mais eficiente aos agricultores.

Vilmar Costa, presidente da AQK, na palestra com a comunidade sobre as 19 espécies ameaçadas que ocorrem no terrritório Kalunga. Foto: ©Acervo Associação Quilombo Kalunga

A sensibilização é outro componente essencial do projeto financiado pelo CEPF. Apresentações sobre 19 espécies ameaçadas encontradas na região foram amplamente divulgadas nas escolas locais e nos municípios. “Os alunos e professores participantes postaram fotos e comentários em suas redes sociais, o que acabou levando ao conhecimento em larga escala das 19 espécies da Chapada dos Veadeiros”, disse Costa. A AQK também fez apresentações durante as reuniões da comunidade e distribuiu calendários e faixas que descreviam a biodiversidade local e como protegê-la.

Agora, A AQK está trabalhando na criação de uma plataforma online que permitirá que cada família atualize suas próprias informações.

O projeto também foi relatado localmente pelo The Brazilian Report e De Olho Nos Ruralistas. Recentemente, o portal G1 Natureza publicou uma série de reportagens e vídeos sobre a comunidade Kalunga.

Leia o texto original desta matéria, que está disponível em inglês no site do CEPF.

Sobre a Associação Quilombo Kalunga  e o CEPF Cerrado

A Associação Quilombo Kalunga é uma organização civil, sem fins lucrativos e sem finalidade econômica, fundada em outubro de 1999. É constituída pelas Associações Kalunga de Cavalcante, de Monte Alegre, de Teresina e do Engenho II, além da Epotecampo. Ela representa o maior território de quilombo no Brasil, com 262 mil hectares de terras. A Associação promove a defesa de interesse de todas as comunidades formadas por moradores do Sítio Histórico e Patrimônio Cultural Kalunga (SHPCK), espalhados entre os municípios goianos de Cavalcante, Monte Alegre de Goiás e Teresina de Goiás, e representá-las em todas as instâncias legais e administrativas.

O projeto “Uso do Geoprocessamento na Gestão do Sítio Histórico e Patrimônio Cultural Kalunga – SHPCK”, fomentado pelo Fundo de Parceria para Ecossistemas Críticos (CEPF, da sigla em Inglês para Critical Ecosystem Partnership Funde com apoio do Instituto Internacional de Educação do Brasil (IEB)O projeto tem como objetivos conhecer com profundidade a realidade das comunidades Kalunga, usar a tecnologia de geoprocessamento  para mapear detalhadamente o território, promover a ocupação do SHPCK de uma forma mais sustentável e fazer com que os Kalunga sejam reconhecidos internacionalmente como defensores da conservação da biodiversidade.


O Fundo de Parceria para Ecossistemas Críticos é uma iniciativa conjunta da Agência Francesa de Desenvolvimento, da Conservação Internacional, União Europeia, da Gestão Ambiental Global, do Governo do Japão e do Banco Mundial. Uma meta fundamental é garantir que a sociedade civil esteja envolvida com a conservação da biodiversidade.

 

Aprovado em Goiás o primeiro regimento interno de um quilombo no Brasil

Iniciativa da Associação Quilombo Kalunga será modelo para outras comunidades quilombolas

por Associação Quilombo Kalunga

A Associação Quilombo Kalunga (AQK) finalizou em maio a elaboração do regimento interno, um projeto pioneiro em nível nacional. O regimento interno estabelece normas para a gestão ambiental e territorial do Sítio Histórico e Patrimônio Cultural Kalunga (SHPCK), para o reconhecimento da ascendência e da remanescência Kalunga, e para a exploração do turismo no território. O SHPCK é considerado o maior território de quilombo no Brasil, com 261.999,69 hectares, e fica localizado na região da Chapada dos Veadeiros, em Goiás.

Vilmar de Souza Costa faz a abertura da Assembleia de Representantes das Comunidades Kalunga para elaborar o Regimento Interno da Associação Quilombo Kalunga. Foto: Maria Lúcia Godinho/Acervo AQK.

De 18 de março a 12 de maio foram realizadas 14 assembleias, que envolveram todas as 39 comunidades Kalunga e contaram com a participação de mais de mil pessoas. Nestes encontros foram debatidos os pontos mais importantes que, no entendimento dos presentes, deveriam constar do regimento interno, sendo por eles eram votados e aprovados os conteúdos. Nestas assembleias também foi sendo amadurecida a criação de um Conselho de Representantes da AQK, um colegiado formado por três representantes de cada comunidade local e que passava a integrar a direção da Associação Quilombo Kalunga.

Nos dias 23 a 26 de maio foi realizada a Assembleia de Representantes eleitos nas reuniões das comunidades, na sede da Associação Kalunga de Cavalcante. Foram momentos de intensos debates de cada artigo e de cada parágrafo, sendo, ao final, aprovado.

De acordo com Vilmar Souza Costa, presidente da Associação Quilombo Kalunga, o regimento interno é de essencial importância para regulamentar as relações existentes dentro do território, sempre respeitando os costumes, os saberes e as tradições do povo Kalunga. “A criação do nosso regimento é mais uma demonstração da capacidade do povo Kalunga de se organizar, de defender e de gerir seu território. Construímos de forma coletiva e participativa as nossas próprias normas, que serão seguidas por todo o nosso povo”, afirma Costa.

Maria Aparecida Mato, diretora-executiva da CONAQ – Coordenação Nacional de Articulações das Comunidades Negras Rurais Quilombolas do Brasil – participou de uma das 14 assembleias e enalteceu a importância das normas e a cultura de um povo quilombola serem colocadas no papel, como uma prova escrita e concreta de tudo que está estabelecido. “Este é o primeiro quilombo do Brasil a criar um regimento interno. É um exemplo e um modelo que será seguido por várias outras comunidades quilombolas do Brasil”, revela.

Geoprocessamento e preservação nas assembleias

Outro tema das assembleias foi o projeto “Uso do Geoprocessamento na Gestão do Sítio Histórico e Patrimônio Cultural Kalunga – SHPCK”, fomentado pelo Fundo de Parceria para Ecossistemas Críticos (CEPF, da sigla em Inglês para Critical Ecosystem Partnership Fund) e com apoio do Instituto Internacional de Educação do Brasil (IEB)O projeto tem como objetivos conhecer com profundidade a realidade das comunidades Kalunga, usar a tecnologia de geoprocessamento  para mapear detalhadamente o território, promover a ocupação do SHPCK de uma forma mais sustentável e fazer com que os Kalunga sejam reconhecidos internacionalmente como defensores da conservação da biodiversidade.

Representando o CEPF/IEB, Michael Jackson faz pronunciamento sobre a importância da organização do povo Kalunga para realizar a gestão ambiental e territorial. Foto: Maria Lúcia Godinho/Acervo AQK.

Desde janeiro está sendo feito o levantamento e o cadastro socioeconômico dos moradores do SHPCK, com a meta de participação de todas as 1,5 mil famílias quilombolas. Terminado o levantamento, será feita a associação dos levantamentos de campo com a base cartográfica e o mapeamento temático realizado por meio de geoprocessamento e sensoriamento remoto. Será feito também o levantamento cadastral das atividades de garimpo, retirada ilegal de madeira e pesca predatória, e dos atrativos turísticos.

As assembleias ainda tiveram como foco a mobilização das famílias quilombolas sobre a importância da conservação da biodiversidade em todo o território. Para isso, foram confeccionados 4 mil calendários, que foram entregues nas casas Kalunga, além de pessoas e de locais estratégicos dos municípios de Alto Paraíso, Cavalcante, Campos Belos, Monte Alegre de Goiás e Teresina de Goiás. Também foram confeccionados banners, fixados em todas as escolas municipais, estaduais e particulares nos cinco municípios.

De acordo com o levantamento prévio feito pela Associação, há 19 espécies localmente ameaçadas encontradas na região. As espécies-alvo de conservação foram priorizadas de acordo com o critério de grau de ameaça, focado em espécies que enfrentam risco extremamente elevado de extinção na natureza, exigindo ações urgentes de conservação.

Sobre a Associação Quilombo Kalunga

A Associação Quilombo Kalunga é uma organização civil, sem fins lucrativos e sem finalidade econômica, fundada em outubro de 1999. É constituída pelas Associações Kalunga de Cavalcante, de Monte Alegre, de Teresina e do Engenho II, além da Epotecampo. Ela representa o maior território de quilombo no Brasil, com 262 mil hectares de terras. A Associação promove a defesa de interesse de todas as comunidades formadas por moradores do Sítio Histórico e Patrimônio Cultural Kalunga (SHPCK), espalhados entre os municípios goianos de Cavalcante, Monte Alegre de Goiás e Teresina de Goiás, e representá-las em todas as instâncias legais e administrativas.

Mais informações:

Telefone: (62) 3494-1062

E-mail: aqkalunga@gmail.com

Facebook da AQK.


O Fundo de Parceria para Ecossistemas Críticos é uma iniciativa conjunta da Agência Francesa de Desenvolvimento, da Conservação Internacional, União Europeia, da Gestão Ambiental Global, do Governo do Japão e do Banco Mundial. Uma meta fundamental é garantir que a sociedade civil esteja envolvida com a conservação da biodiversidade.