Nos últimos meses, Cavalcante e o entorno da Chapada dos Veadeiros voltaram a ser palco de uma crise ambiental de grandes proporções. O fogo consumiu mais de 111 mil hectares, atingindo áreas de proteção ambiental, territórios quilombolas, como o Vão de Almas e o Vão do Moleque, e a Terra Indígena Avá-Canoeiro, segundo levantamento do Brasil de Fato.
A tragédia reforçou um alerta climático: em 2025, o Cerrado concentrou a maioria dos focos de queimadas no país, superando a Amazônia, um dado simbólico de que o coração do Brasil está em colapso.
Em Cavalcante (GO), a fumaça encobriu o céu por mais de duas semanas, e comunidades quilombolas e indígenas se mobilizaram junto a brigadistas para proteger nascentes, roças e moradias. A Área de Proteção Ambiental Pouso Alto, onde nascem parte das águas que alimentam o rio Tocantins, também foi atingida, evidenciando o risco de degradação de ecossistemas vitais. A Agência Brasil e o G1 registraram o esforço das brigadas e voluntários que, mesmo com poucos recursos, conseguiram conter as chamas em áreas limítrofes do Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros.
Mas o fogo é apenas uma das ameaças que cercam o Cerrado. Nos mesmos vales onde nascem os rios e resistem as matas, avançam o desmatamento, os loteamentos irregulares e a especulação de terras. Em meio a essa pressão crescente, um grupo de moradores e pequenos proprietários escolheu agir de outro modo: transformar suas áreas em Reservas Particulares do Patrimônio Natural (RPPNs). Essas pequenas ilhas de conservação formam, juntas, um mosaico de resistência ambiental que cresce no coração da Chapada dos Veadeiros.



Fotos: Alice Lira
As RPPNs e o poder da conservação privada
As RPPNs são unidades de conservação instituídas por vontade do proprietário e reconhecidas oficialmente pelo poder público. Regidas pela Lei nº 9.985/2000 (SNUC), são de caráter perpétuo e voltadas à proteção integral, permitindo apenas pesquisa científica, turismo de natureza e educação ambiental.
No Cerrado, onde menos de 9% do território está protegido por áreas públicas e o bioma concentra mais de 60% do desmatamento recente do país, as reservas privadas cumprem uma função essencial: preencher os vazios do Estado e costurar corredores ecológicos de fauna, água e vegetação entre parques, territórios quilombolas e terras indígenas.
Com apoio da Funatura, através do projeto Fortalecimento das Reservas Privadas na região da Chapada dos Veadeiros: uma visão do futuro, financiado pelo CEPF Cerrado via Governo do Canadá, os proprietários da região organizaram a Rede de RPPNs da Chapada dos Veadeiros, que articula manejo coletivo, prevenção de incêndios e apoio técnico e jurídico a quem decide conservar. “A gente tem a nossa ação individual, mas a gente tem a necessidade de nossa ação coletiva. Eu acho que esse trabalho de criar essa rede, articular essas pessoas, é um grande passo”, resume a professora Ana Isabel, da RPPN Nascentes, que protege cinco nascentes perenes e restaura o Cerrado produzindo alimentos como mandioca, abóbora e gergelim.
Recentemente, ela enfrentou o assédio de uma mineradora que entrou em sua área para fotografar e propor exploração. “A ameaça da mineração não é possível de enfrentar sozinha. Por isso a rede é importante. Ela é o que nos permite reagir”, afirma.
A serra, o ouro e o falso progresso
Na Vale das Araras, o produtor Richard Avólio restaurou uma antiga pastagem degradada e hoje recebe visitantes em trilhas autoguiadas e atividades de educação ambiental. Ele enfrenta incêndios, caça com cães e o risco crescente da especulação imobiliária. “O turismo mostra que o Cerrado vale mais vivo do que morto”, comenta.
Mais adiante, na Serra da Boa Vista, Carlos Perna criou as RPPNs Terra Crua 1 e 2, ao pé de uma das regiões mais belas, e cobiçadas, de Cavalcante. “Eu vi o Cerrado desaparecer. Tudo virou uma monocultura enorme. É apavorante. Enquanto isso, a gente tenta segurar o que resta”, diz.
Agora, a região também enfrenta a pressão da mineração, agravada pela valorização global dos minerais ligados à chamada “transição energética”. Segundo o Plano de Manejo da APA Pouso Alto (Governo de Goiás, 2025), há mais de 300 processos ativos para exploração de manganês, ouro, ferro e estanho em municípios como Cavalcante, Alto Paraíso e Colinas do Sul. Substâncias consideradas incompatíveis com os objetivos da unidade de conservação, por gerar poluição das águas, desmatamento e degradação de ecossistemas, ameaçando o equilíbrio hídrico e biológico da região.
Carlos observa o paradoxo com clareza: “O ouro aqui é de baixa densidade. Para extrair um pouco, tem que destruir muito. Essa serra é viva. Se cavarem, não tem volta.” A crítica é urgente. Enquanto o governo de Goiás firma acordos bilionários com mineradoras de terras raras, com o discurso da “energia limpa”, comunidades do entorno, quilombolas, indígenas e rurais, vão enfrentar os impactos da extração sem participar dos benefícios. “Um quilombola dificilmente vai comprar um carro elétrico”, comenta Carlos. “Mas vai conviver com o buraco, com a água poluída e com a terra contaminada o resto da vida.”
Um mosaico de resistência
As histórias de Ana, Richard e Carlos se repetem em diferentes pontos da Chapada, mostrando que a conservação privada deixou de ser exceção e virou estratégia coletiva. A rede das RPPNs conecta propriedades pequenas, mas próximas entre si e de unidades públicas, formando mosaicos capazes de conter o fogo, proteger nascentes e gerar renda sem desmatamento.
Essas experiências revelam que conservar é, antes de tudo, uma escolha política: não de gabinete, mas de quem vive o território e decide defendê-lo. Como diz Ana, “A ameaça é grande, mas a gente precisa resistir. Todas as formas de luta só são possíveis, só são viáveis coletivamente.”
O fortalecimento da Rede de RPPNs da Chapada dos Veadeiros, com apoio da Funatura, do Fundo de Parceria para Ecossistemas Críticos (CEPF), Governo do Canadá e do IEB, reafirma o papel estratégico da sociedade civil na conservação do Cerrado. O que nasce de iniciativas individuais se transforma, com articulação e apoio técnico, em política de território e em legado coletivo.
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O Fundo de Parceria para Ecossistemas Críticos (CEPF) é uma iniciativa conjunta da Agência Francesa de Desenvolvimento, da Conservação Internacional, da União Europeia, da Fundação Hans Wilsdorf, do Fundo Global para o Meio Ambiente, do Governo do Canadá, do Governo do Japão e do Banco Mundial. Sua principal meta é fortalecer a conservação da biodiversidade em regiões consideradas prioritárias, com o envolvimento direto da sociedade civil.
O Instituto Internacional de Educação do Brasil (IEB) atua como a Equipe de Implementação Regional do Fundo de Parceria para Ecossistemas Críticos (CEPF). A missão do IEB é fortalecer os atores sociais e o seu protagonismo na construção de uma sociedade justa e sustentável, por meio de formação de pessoas, fortalecimento e articulação de instituições e grupos comunitários, e geração e disseminação de conhecimentos.
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Por Valéria Diniz de Amorim
Equipe de Comunicação CEPF Cerrado / IEB






