Rio Almas Vivo: a força das águas e das mulheres de Cavalcante 

Em Cavalcante, o Rio Almas é geografia e cotidiano: abastece a cidade, estrutura o lazer local e segue rumo ao Território Kalunga, onde recebe o nome de Rio Branco,  sustentando modos de vida tradicionais. É nesse ponto de encontro entre cidade e território que o Instituto Pouso Alto (IPA) executa o Rio Almas Vivo, projeto de restauração apoiado pelo IEB e CEPF, através do Governo do Canadá, que atua para conter o assoreamento e restaurar as margens do rio.

O nome do projeto não é metáfora, nasceu de um diagnóstico simples e urgente: intervir cedo custa menos e resulta mais. “O Rio das Almas é o maior ponto de encontro da população aqui. Ainda tem uma água relativamente limpa, mas apresenta sinais de assoreamento e trechos de mata ciliar destruídos. Pensamos que, se a gente fizesse um projeto agora, poderíamos reverter a deterioração a um custo mais baixo, porque ainda estamos no começo do processo”, afirma Flávia Cantal, diretora-presidente do IPA. 

O projeto combina ciência e engajamento social. Foram cercadas áreas degradadas e iniciados mutirões de plantio com espécies nativas, adaptando técnicas às condições locais, como o uso de hidrogel, irrigação auxiliar e o “endurecimento” de mudas antes do replantio, para resistirem à seca. “Tudo que é grande começa pequeno”, completa Flávia. “Estamos restaurando quatro hectares, mas já recebemos convite para ampliar para mais três. Esses primeiros passos criam uma nova cultura de convivência com o rio.”

Fotos: Alice Lira

Mulheres: o elo entre o cuidado e o território

As rodas de conversa com mulheres começaram como um desafio: como conectar gênero e conservação em um projeto de restauração ambiental? Para a equipe do Instituto Pouso Alto (IPA), parecia uma equação distante. A resposta veio do próprio território, por meio de lideranças como Marta Kalunga e Solange Avakanoeira, que há anos articulam o fortalecimento feminino nas comunidades locais.

A primeira roda reuniu cerca de 20 mulheres de diferentes contextos, representantes da prefeitura, moradoras de comunidades vizinhas e até visitantes, num espaço de escuta e partilha que expôs uma carência profunda de espaços de fala e troca. Ali, a conversa sobre restauração se ampliou: tornou-se sobre corpo, território e pertencimento.

“No início parecia que gênero e conservação eram temas desconectados”, conta Marina Tavares, coordenadora do projeto. “Mas nas conversas, isso se tornou muito evidente: a violência que a mulher sofre tem muito a ver com a violência que a natureza sofre. Ambas nascem do mesmo lugar: o domínio, o controle, o poder.”

A proposta das rodas vai além do encontro pontual: é o início de uma cultura de restauração contínua, onde o cuidado com a terra e com a água começa dentro das próprias relações humanas. “O que a gente quer é criar um espaço de cuidado”, explica Marina. “Oferecer acolhimento, alimentação, uma cuidadora (para as crianças), e incentivar o autocuidado feminino. Porque, quando a mulher consegue cuidar de si, ela também consegue cuidar do ambiente onde vive.”


Entre a água e o veneno: o que está em jogo em Cavalcante

Cavalcante reflete, em escala local, as grandes disputas do Cerrado: a proteção das águas, os direitos territoriais e os limites do agronegócio. O entorno do território Kalunga vive episódios de desmatamento e avanço agropecuário próximos a nascentes, com risco associado de contaminação da água por agrotóxicos, preocupação reiterada por moradores e pela própria associação quilombola.

Em 2025, após denúncias e mobilização de organizações locais, a Justiça suspendeu autorizações para atividades agropecuárias dentro do território até a realização de consulta prévia, livre e informada, justamente para resguardar nascentes e segurança hídrica.

Levantamentos recentes da Campanha Nacional em Defesa do Cerrado, em parceria com a Comissão Pastoral da Terra (CPT) e a Fiocruz, identificaram 13 princípios ativos de agrotóxicos em amostras de água que abastecem comunidades do Cerrado, incluindo municípios goianos. Outras investigações de dados públicos mostram níveis acima do limite legal em cidades próximas, alertando para riscos de contaminação difusa de rios e lençóis freáticos.

“O Rio das Almas é a vida de muita gente. Ele abastece metade do Vão de Almas. Mas os venenos da soja estão caindo na água. Isso está matando meu povo. Hoje tem câncer nas comunidades. Antes não tinha”, denuncia Marta Kalunga, artista e liderança quilombola.

A fala de Marta resume o dilema central do Cerrado: um bioma que abastece o país e, ao mesmo tempo, é sacrificado em nome da produção. O Rio Almas Vivo tenta reverter essa lógica, reconstruindo o que ainda pode ser salvo, e mostrando que a governança das águas é inseparável da justiça ambiental.

O Rio das Almas faz parte de um sistema que liga o Cerrado goiano à bacia do Tocantins-Araguaia, responsável por abastecer milhões de pessoas e sustentar atividades econômicas em todo o Centro-Oeste e Norte do país. Proteger suas nascentes significa conservar o que há de mais essencial: a água que conecta biomas, territórios e modos de vida. Ao restaurar as margens do rio e fortalecer o protagonismo das comunidades locais, o Instituto Pouso Alto (IPA) e seus parceiros demonstram que a conservação é também uma política de cidadania, e que o Cerrado vivo depende, antes de tudo, de pessoas ativas e engajadas.

O Fundo de Parceria para Ecossistemas Críticos (CEPF) é uma iniciativa conjunta da Agência Francesa de Desenvolvimento, da Conservação Internacional, da União Europeia, da Fundação Hans Wilsdorf, do Fundo Global para o Meio Ambiente, do Governo do Canadá, do Governo do Japão e do Banco Mundial. Sua principal meta é fortalecer a conservação da biodiversidade em regiões consideradas prioritárias, com o envolvimento direto da sociedade civil.

O Instituto Internacional de Educação do Brasil (IEB) atua como a Equipe de Implementação Regional do Fundo de Parceria para Ecossistemas Críticos (CEPF). A missão do IEB é fortalecer os atores sociais e o seu protagonismo na construção de uma sociedade justa e sustentável, por meio de formação de pessoas, fortalecimento e articulação de instituições e grupos comunitários, e geração e disseminação de conhecimentos.

Por Valéria Diniz de Amorim

Equipe de Comunicação CEPF Cerrado / IEB

13 de outubro de 2025