1º Encontro CEPF Cerrado: Tecendo Saberes sobre Gênero e Conservação

Nos dias 20 e 21 de março de 2025, foi realizado em Brasília o 1º Encontro CEPF Cerrado: Tecendo Saberes sobre Gênero e Conservação, promovido pelo Instituto Internacional de Educação do Brasil (IEB), que atua como Equipe de Implementação Regional (RIT) do CEPF Cerrado no país. O evento reuniu representantes dos 36 projetos selecionados no novo ciclo de investimentos do Fundo no bioma. Mais do que um encontro de boas-vindas, foi uma convocatória à inovação: pensar e fazer conservação a partir de outras  visões de mundo, e pertencimentos e experiências, especialmente  de mulheres.

 

O Cerrado em perspectiva global
O Cerrado é vital para a regulação climática, a segurança hídrica e a soberania alimentar do Brasil e da América do Sul. Reconhecido como um dos 36 hotspots de biodiversidade no mundo, seu remanejamento acelerado para o agronegócio industrial, nas últimas décadas, resultou na perda de quase 50% da cobertura vegetal original. Hoje, os níveis de desmatamento no bioma superam os da Amazônia.

Desde 2016,  CEPF e IEB investem na conservação do Cerrado por meio do fortalecimento da sociedade civil, da promoção de áreas protegidas, do incentivo a cadeias produtivas sustentáveis e da proteção de espécies ameaçadas. Mais de 60 projetos já foram apoiados, conectando organizações comunitárias, universidades, cooperativas, coletivos de mulheres, agricultura familiar, povos indígenas e quilombolas em uma rede viva de cuidado e resistência.

O novo ciclo, iniciado em 2025, reafirma esse compromisso com ainda mais profundidade: não basta conservar áreas, é preciso tecer justiça e valorizar a vida como um todo.

 

Gênero como eixo de conservação
As mulheres do Cerrado desempenham papéis centrais na manutenção da biodiversidade e dos modos de vida sustentáveis. Mesmo historicamente invisibilizadas nas decisões ambientais, são elas que organizam as cadeias de valor da sociobiodiversidade, manejam recursos de forma responsável, protegem territórios e transmitem saberes ancestrais. Ainda assim, enfrentam obstáculos sistemáticos para acessar recursos, espaços institucionais e posições de liderança.

Ao propor o gênero como eixo estruturante de toda a atuação no novo ciclo, o CEPF propõe uma mudança de paradigma: compreender as desigualdades como barreiras ambientais e investir em ações que promovam equidade como estratégia de conservação. O encontro de Brasília foi o primeiro passo para essa virada, reunindo experiências diversas e provocando reflexões urgentes.

“Integrar gênero à conservação não é um gesto de inclusão, é um reconhecimento de quem sustenta, com o corpo e o trabalho, a vida no território”, afirmou a Analista Socioambiental e coordenadora do projeto, Aryanne Amaral.

 

Vozes, práticas e territórios em diálogo

Durante os dois dias de encontro, os projetos apoiados compartilharam experiências sobre produção sustentável, fortalecimento da agricultura local e recuperação de áreas que ajudam a aumentar a presença de água e biodiversidade. As trocas revelaram que é possível conservar o Cerrado e, ao mesmo tempo, gerar renda, respeitar os saberes das comunidades e garantir a permanência dos povos em seus territórios.

Essas práticas se conectam diretamente ao enfrentamento das desigualdades de gênero e das violências no campo. Em diversos relatos, o protagonismo das mulheres foi evidenciado como elemento central para a continuidade das ações: elas lideram, organizam, cultivam e mantêm os territórios vivos. Ao colocar o debate de gênero como parte do fazer cotidiano, o encontro reafirmou que conservar o Cerrado é também garantir autonomia, decisão e voz para quem o mantém de pé.

 

Um novo tempo para o CEPF Cerrado
Com o início desse novo ciclo, o CEPF e IEB ampliam sua missão de garantir que a sociedade civil tenha papel ativo e protagonista na conservação dos ecossistemas mais ameaçados do mundo. No Cerrado, essa missão se traduz em uma escuta qualificada das lideranças locais, no incentivo à autonomia das comunidades e em investimentos que reconhecem a equidade de gênero como tecnologia social para o futuro.

O novo plano de ação do CEPF Cerrado prevê, além do apoio financeiro, o fortalecimento de capacidades institucionais, o intercâmbio de experiências, a valorização das culturas tradicionais e o desenvolvimento de metodologias que integrem conservação, direitos humanos e enfrentamento da crise climática.

 

Por um Cerrado com justiça e permanência
O 1º Encontro CEPF Cerrado não apenas lançou um novo ciclo de financiamento. Ele inaugurou um tempo político, simbólico e metodológico para o Fundo e para todas as organizações envolvidas. Um tempo em que as vozes femininas, múltiplas, negras, indígenas, jovens, anciãs, não apenas participam, mas constroem as direções da conservação no Brasil.

Como refletiu Aryanne “Quando protegemos o território, protegemos as possibilidades de existência. Quando reconhecemos as mulheres como líderes da conservação, estamos cuidando do presente e garantindo o futuro.”

A equipe do CEPF Cerrado e do IEB agradecem a todas as pessoas que compartilharam saberes, afetos e trajetórias neste primeiro encontro. Que possamos seguir tecendo redes, promovendo diálogos e fortalecendo as raízes de um Cerrado vivo, justo e diverso.

Por Valéria Amorim e Luférris Alves
Equipe de comunicação CEPF Cerrado / IEB

 

25 de abril de 2025