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Rede Cerrado: 27 anos de articulação de povos e comunidades tradicionais

por Thays Puzzi, assessoria de comunicação da Rede Cerrado

Apoio do CEPF e DGM/Brasil conseguiu multiplicar ações de fortalecimento e integração entre as mais 50 organizações associadas

Constituída na década de 1990 durante a ECO-92 por um conjunto de entidades que, naquele momento, viram na articulação em rede uma estratégia de luta e resistência, a Rede Cerrado, ao longo de mais de 25 anos de história, tornou-se referência na área socioambiental e no apoio à construção de políticas públicas que visam conservar o Cerrado e garantir direitos aos povos e às comunidades tradicionais que habitam o Bioma. Nos últimos dois anos (2018-2019), em especial, a Rede Cerrado, por meio do apoio do Fundo de Parcerias para Ecossistemas Críticos (CEPF, na sigla em inglês para Critical Ecosystem Partnership Fund) e do DGM/Brasil, conseguiu multiplicar ações de fortalecimento e integração entre as mais 50 organizações associadas.

Mesa de abertura do IX Encontro e Feira dos Povos do Cerrado, realizado de 11 a 14 de setembro de 2019, Brasília, DF. Foto: ©Aryanne Amaral/Acervo IEB

“A Rede Cerrado atuou junto às organizações associadas para apoiar, por exemplo, o Ministério Público Federal na construção de plataforma de Territórios Tradicionais, realizou uma série de encontros e seminários sobre territórios com representantes de povos e comunidades tradicionais, realizou a nona edição do Encontro e Feira dos Povos do Cerrado e, está em fase final de apoio na construção de um aplicativo, desenvolvido pelo IPAM, para mapeamento de Territórios Tradicionais. Foram muitas ações realizadas com o apoio do CEPF e das entidades associadas”, destacou Rodrigo Noleto, coordenador do programa Amazônia do Instituto Sociedade, População e Natureza (ISPN). Para ele, é importante manter a Rede Cerrado viva, pois, segundo Noleto, muitas vezes ela é a voz de socorro, de apoio e de articulação de povos e comunidades tradicionais. “Espero que a Rede Cerrado possa sair fortalecida, e mantenha as condições de articulação tão necessárias para esse período em que vivemos”, observou.

O sentimento é compartilhado pelo geraizeiro Samuel Caetano, do Centro de Agricultura Alternativa do Norte de Minas Gerais (CAA-NM). Para ele, a Rede Cerrado é uma parceira estratégica para as organizações que prezam pelo desenvolvimento sustentável e uma relação mais harmoniosa com o meio ambiente. “A Rede Cerrado se consolidou como um espaço político para essas organizações, pois proporciona a unificação das lutas com um debate mais qualificado e estratégico. É onde nós, povos e comunidades tradicionais do Cerrado, trocamos experiências, pensamos e formulamos políticas públicas que defendam o Cerrado e seus povos”, ressaltou.

Foto: ©Acervo Rede Cerrado

Já Maria do Socorro Teixeira Lima, quebradeira de coco babaçu e coordenadora-geral da Rede Cerrado, os últimos dois anos foram essenciais para o fortalecimento institucional da Rede Cerrado. Para ela, agora, é preciso ampliar o trabalho junto às comunidades de base. “Por isso a continuidade da Rede Cerrado é tão importante. Nós a resgatamos, a reestruturamos. Deixo esse recado para os nossos parceiros”. Rose Mary Araújo, da Mulheres em Ação do Pantanal (Mupan), considera essencial o apoio dado à Rede Cerrado. “Não existem paisagens sem pessoas e a Rede Cerrado precisa muito desse apoio, principalmente agora que estamos restabelecidos. No campo político não existe outra organização como a Rede Cerrado”, destacou. César Victor do Espírito Santo, da Fundação Pró-Natureza (Funatura) disse que o CEPF veio suprir uma lacuna no Cerrado, já que ele, historicamente, é um Bioma que recebe poucos recursos para projetos de conservação. “O fortalecimento da Rede Cerrado é muito importante para fazer com que as pautas do Cerrado sejam levadas a diante. Não somente dos povos e comunidades tradicionais, mas também as relacionadas à conservação da biodiversidade’, completou.

O objetivo principal do projeto apoiado pelo CEPF Cerrado foi fortalecer institucionalmente a Rede Cerrado, além de ampliar sua incidência. A principal ação foi a realização do IX Encontro e Feira dos Povos do Cerrado que reuniu na capital federal, Brasília, mais de 500 representantes de povos e comunidades tradicionais de todo o Cerrado e cerca de sete mil pessoas da sociedade em geral. Além de trocarem experiências entre si e debaterem estratégias para a manutenção do Cerrado em pé, eles puderam expor produtos da sociobiodiversidade e mostrar um pouco da diversidade cultural e gastronômica para cerca de sete mil pessoas que prestigiaram o evento.

I Oficina de Territórios da Rede Cerrado realizada em novembro de 2018. Foto: ©Thays Puzzi/Acervo Rede Cerrado

Outro projeto que permitiu a ampliação das ações da Rede Cerrado foi o Programa DGM/FIP (Dedicated Grant Mechanism for Indigenous People and Local Communities – Fundo de Investimento Florestal), do Banco Mundial.

Para Kátia Favilla, secretária-executiva da Rede Cerrado, esses últimos dois anos foram essenciais para reforçar os processos de articulação e animação da Rede Cerrado. “Para os próximos anos, o maior desafio será a atuação em conjunto das organizações em um cenário com poucos recursos financeiros e desmonte de políticas públicas ambientais e de garantia de direitos dos povos e comunidades tradicionais. Somente com a união das entidades e o fortalecimento das comunidades em suas localidades, além de um forte trabalho de base, poderemos garantir a existência do Cerrado e dos seus povos”, afirmou Favilla.

Rede Cerrado e CEPF Cerrado

A Rede Cerrado conta com apoio do CEPF Cerrado para executar o projeto “Rede fortalecida, Cerrado conservado”, que tem o objetivo de ampliar a incidência política da Rede na elaboração, implementação e monitoramento de políticas públicas de promoção ao desenvolvimento sustentável, com respeito aos direitos de agricultores familiares, povos e comunidades tradicionais.


O Fundo de Parceria para Ecossistemas Críticos é uma iniciativa conjunta da Agência Francesa de Desenvolvimento, da Conservação Internacional, União Europeia, da Gestão Ambiental Global, do Governo do Japão e do Banco Mundial. Uma meta fundamental é garantir que a sociedade civil esteja envolvida com a conservação da biodiversidade.

 

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No mês do Cerrado, povos e comunidades tradicionais elevam vozes em defesa do bioma

por Thays Puzzi, Assessoria de Comunicação da Rede Cerrado

IX Encontro e Feira dos Povos do Cerrado, promovido pela Rede Cerrado, foi prestigiado por aproximadamente sete mil pessoas. Seminários, oficinas, shows e comercialização de produtos da sociobiodiversidade movimentaram a capital federal de 11 a 14 de setembro

Mesa de abertura no IX Encontro e Feira dos Povos do Cerrado. Foto: A. Amaral / Acervo IEB

Cerrado: o que te faz lembrar dele? Mesmo que alguns ainda não percebam ou não saibam, este Bioma é rico em diversidades. Tem cultura, tem gente, tem planta, tem animais, tem vida! E isso pode ser vivenciado pelas quase sete mil pessoas que prestigiaram a nona edição do Encontro e Feira dos Povos do Cerrado, que ocorreu em Brasília, de 11 a 14 de setembro. Seminários, oficinas, shows, comercialização de produtos da sociobiodiversidade, além da tradicional Corrida de Toras deram vazão às riquezas e às principais demandas do Bioma, dos povos indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais que foram os protagonistas do evento, que teve início, não por acaso, no Dia Nacional do Cerrado.

Com o tema ‘Pelo Cerrado Vivo: Território, Diversidades e Democracia‘, o Encontro e Feira dos Povos do Cerrado, promovido pela Rede Cerrado, foi um espaço de encontros, celebração, denúncias, lutas e resistências. “Foi muito gratificante porque nós unimos forças por uma luta comum que é a defesa do Cerrado. Eu participo desde a primeira edição e vivenciar essa união, apresentar nossas riquezas e produtos foi muito bom”, destacou Lucely Pio, quilombola e raizeira que, além de trazer cosméticos a base de plantas medicinais do Cerrado, presenteou os participantes ministrando uma oficina sobre saúde da mulher. Ao todo, foram realizadas durante o evento 18 oficinas com a participação de mais de 750 pessoas. Diferentes temas foram abordados, como gênero, juventudes, gestão territorial, neoextrativismo, conflitos socioambientais, produção e comercialização de produtos agroextrativistas, entre outros.

Cerimônia de abertura do IX Encontro e Feira dos Povos do Cerrado. Foto: ©A. Amaral / Acervo IEB

“Meu sentimento é de felicidade, de realização. Pela situação que estamos vivendo, a realização deste encontro foi muito importante. Uma vitória de cada um de nós que juntos nesta Rede fizemos nosso evento acontecer. É preciso chamar a atenção de toda a sociedade. Pedimos que nos ajudem a cuidar do Cerrado, a combater todo o mal que está acontecendo com ele”, desabafou Maria do Socorro Teixeira Lima, quebradeira de coco babaçu e coordenadora geral da Rede Cerrado.

Com uma mistura de sentimentos refletidos no olhar, ela lembrou de todas as problemáticas enfrentadas pelo Cerrado, seus povos e comunidades tradicionais. Atualmente, ele é o Bioma mais ameaçado do Brasil. Mais da metade da vegetação original do Cerrado já foi desmatada. Ele, que é o segundo maior Bioma do país, ocupando 24% de todo território nacional, concentra 30% de toda biodiversidade do país e 5% da biodiversidade do planeta. Além disso, é no Cerrado que estão localizadas oito das doze regiões hidrográficas brasileira, abastecendo seis das oito grandes bacias hidrográficas do país. É no Cerrado, por exemplo, onde estão três dos principais aquíferos do Brasil: Bambuí, Urucuia e Guarani. O avanço indiscriminado das grandes monoculturas no Bioma tem afetado diretamente a sociobiodiversidade e as águas do Cerrado, responsáveis por abastecer grande parte do país.

Seminário “A Importância dos Povos e Comunidades para a conservação do Cerrado” em Brasília, DF no dia Nacional do Cerrado. Foto: ©A. Amaral / Acervo IEB

Além disso, a região Centro-Oeste do Brasil, quase toda ocupada pelo Cerrado, está na segunda posição quando se trata da elevação do número de incêndios florestais (atrás da Amazônia), apresentando o crescimento de 100% do número de focos de incêndio no comparativo com dados de 2018, segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE). No início do mês de setembro, por exemplo, o incêndio no Parque Nacional da Chapada dos Guimarães, situado no Mato Grosso, destruiu quase 4 mil hectares de sua área.

Leia a Carta Política do IX Encontro e Feiras dos Povos do Cerrado e esta matéria completa no site da Rede Cerrado!

A Rede Cerrado conta com apoio do CEPF Cerrado para executar o projeto “Rede fortalecida, Cerrado conservado”, que tem o objetivo de ampliar a incidência política da Rede na elaboração, implementação e monitoramento de políticas públicas de promoção ao desenvolvimento sustentável, com respeito aos direitos de agricultores familiares, povos e comunidades tradicionais. Durante o IX Encontro e Feira dos Povos do Cerrado, a Rede Cerrado e algumas instituições parceiras do CEPF Cerrado promoveram discussões importantes relacionadas à temas como gênero e território, comércio justo e solidário da cadeia do baru, gestão territorial e ambiental nas terras indígenas do Cerrado, conflitos socioambientais no MATOPIBA e a comercialização dos produtos agroextrativistas do Cerrado.

Fiquem ligados, pois logo vamos publicar mais notícias sobre o desdobramento destas discussões durante o IX Encontro e Feira dos Povos do Cerrado!


O Fundo de Parceria para Ecossistemas Críticos é uma iniciativa conjunta da Agência Francesa de Desenvolvimento, da Conservação Internacional, União Europeia, da Gestão Ambiental Global, do Governo do Japão e do Banco Mundial. Uma meta fundamental é garantir que a sociedade civil esteja envolvida com a conservação da biodiversidade.