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Quilombo Kalunga é o primeiro território no Brasil reconhecido com conceito global

CEPF e IEB contribuíram para a classificação internacional que atesta conservação do quilombo goiano

por Luana Luizy, Assessoria de Comunicação, Instituto Internacional de Educação do Brasil

Você sabe o que é TICCA?

O conceito global significa Territórios e Áreas Conservadas por Comunidades Indígenas e Locais, e vem sendo atribuído por organizações internacionais, como as Nações Unidas, a territórios comunitários e tradicionais conservados, onde a população tem forte conexão com o lugar que habita, os chamados “territórios de vida”.

“Para receber esta classificação, a comunidade deve ser o ator principal no processo de tomada de decisão da gestão do território”, conta Vilmar Souza Costa, explicando sobre o processo de registro do Sítio Histórico e Patrimônio Cultural Kalunga, do qual fez parte quando estava como  presidente da Associação Quilombola Kalunga (AQK).

Localizado ao norte de Goiás, a 520 km da capital, o quilombo Kalunga foi o primeiro, até então, a ser considerado TICCA no Brasil.

Imagem realizada com drone pelos quilombolas para mapeamento do território. Foto: Acervo Associação Quilombo Kalunga.

“Foi um processo muito participativo, temos uma comunidade preservada, um território de vida, mas sofremos constantes invasões. A formalização TICCA tem nos ajudado a dar visibilidade internacional para nos proteger”, afirma Vilmar, citando mais um dos benefícios da nomenclatura: o fortalecimento da comunidade contra ameaças externas, como megaprojetos e apropriações indevidas. “Ganhamos autonomia na gestão da nossa terra. Agora que estamos listados no mapa internacional das comunidades tradicionais como TICCA, temos esperança de nos unirmos nessa luta com outras comunidades pelo mundo”, diz Damião Moreira Santos, membro da AQK.

O Fundo de Parceria Para Ecossistemas Críticos (CEPF, na sigla em inglês) e o Instituto Internacional de Educação do Brasil (IEB) tiveram participação ativa e foram fundamentais para o registro da comunidade Kalunga como TICCA. “Apoiamos a gestão territorial, pois percebemos que ela é bastante importante do ponto de vista da conservação. A AQK foi a fundo com o projeto. Acompanhamos as etapas de gestão territorial deles: revisão do estatuto, mapeamento de seus recursos naturais e a gestão de conflitos na comunidade”, relata Michael Becker, coordenador do CEPF Cerrado.

Quem pode ser TICCA?

O conceito TICCA tem sido promovido em todo o mundo, especialmente pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) e Natural Justice, entre outros importantes atores internacionais. Para ser considerada TICCA, a população precisa ter uma profunda e estreita conexão com seu território; processos de gestão e governança; resultados positivos na conservação da natureza, assim como de bem-estar de seu povo.

Assembleia de debate sobre o registro do quilombo Kalunga como TICCA. Fonte: ICCA Registry.

Cercado pelas riquezas naturais e culturais do Cerrado, o quilombo Kalunga foi formado há mais de 300 anos por homens e mulheres que não aceitaram viver sob o regime escravagista da época. Damião Moreira Santos – que já foi homenageado como o herói do hotspot[1] Cerrado – relata que o CEPF foi o grande responsável por apresentar a ideia da TICCA, os resultados dessa parceria são colhidos até hoje pelos quilombolas.

“Continuamos fazendo gestão do território devido ao apoio do CEPF. A partir dessa parceria, criamos um regimento interno, começamos a visitar as comunidades espalhadas por todo o nosso território e os moradores começaram a conhecer a associação”, conta.

Benefício

No Brasil, o debate sobre TICCA vem acontecendo desde 2018 e está agregando cada vez mais setores sociais, acadêmicos e a sociedade civil. O registro internacional da área é uma forma de reconhecimento de seus valores ambientais e econômicos, seu sistema de governança e seus resultados de gerenciamento. Como tal, os benefícios que uma comunidade traz ao ser registrada, dependem, em grande parte, do uso que faz deste reconhecimento. Para os kalunga, a terra onde vivem é sinônimo de governança e sustentabilidade, e o reconhecimento como TICCA representou uma valorização local. “Trouxe visibilidade para a gente. Um quilombo conhecido internacionalmente pode nos trazer benefícios. Assim, não ficamos à mercê dos governos locais, caso aconteça alguma agressão”, afirma Damião.

Sobre a Associação Quilombo Kalunga e o CEPF Cerrado

O processo para o registro como TICCA foi todo participativo. FONTE: ICCA Registry.

A Associação Quilombo Kalunga é uma organização civil, sem finalidade econômica, fundada em outubro de 1999. Representa o maior território de quilombo no Brasil, com 262 mil hectares de terras. A AQK defende os interesses dos moradores do Sítio Histórico e Patrimônio Cultural Kalunga (SHPCK), que abrange os municípios goianos de Cavalcante, Monte Alegre de Goiás e Teresina de Goiás.

O projeto, fomentado pelo CEPF e com apoio do IEB, tem como objetivos conhecer com profundidade a realidade das comunidades Kalunga, usar a tecnologia de geoprocessamento  para mapear detalhadamente o território, promover a ocupação do SHPCK de uma forma mais sustentável e fazer com que os Kalunga sejam reconhecidos internacionalmente como defensores da conservação da biodiversidade.

Para mais informações sobre a Associação Quilombo Kalunga acesse a página oficial no Facebook.

[1] Os hotsposts podem ser definidos como áreas com grande biodiversidade, ricas principalmente em espécies endêmicas e que apresentam alto grau de ameaça. Essas áreas são, portanto, locais que necessitam de atenção urgente, sendo consideradas prioritárias nos programas de conservação.


O Fundo de Parceria para Ecossistemas Críticos é uma iniciativa conjunta da Agência Francesa de Desenvolvimento, da Conservação Internacional, União Europeia, da Gestão Ambiental Global, do Governo do Japão e do Banco Mundial. Uma meta fundamental é garantir que a sociedade civil esteja envolvida com a conservação da biodiversidade.

 

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